Desenvolvemos algumas cartas que podem ser utilizadas para percorrer a região central do Rio de Janeiro. Escolha um dos percursos a seguir e aproveite para refletir sobre a cidade:

 

» Cartas do percurso Avenida Central (pdf)

O caminhar como ferramenta de apropriação do espaço-tempo em seus mais diversos aspectos​

Este material de cartas foi realizado a partir de visitas de campo pelo Centro do Rio, refletindo, vivenciando e observando alguns temas: modos de viver; espaços seguros e proibidos; lugares invisibilizados e lugares turísticos; mudanças arquitetônicas e da paisagem ao longo dos anos; o que se deseja preservar; o interesse da iniciativa privada sobre a cidade; e as diferentes percepções que se podem absorver na observação do espaço. 

 

Um ponto que aprofundamos foi o controle da cidade pelo capital privado, onde historicamente alguns lugares são valorizados e outros são invisibilizados. Quais são as consequências dessa prática? Ao longo da construção das cidades e das propostas de "progresso" e "desenvolvimento" pode-se observar diversas remoções como medidas higienistas que ignoraram moradores e seus direitos. São diferentes cidades dentro de uma mesma, com pontos de vista e investimentos extremamente distintos sobre um mesmo lugar. Podemos observar que nem todos têm o mesmo direito à cidade, e cidades divididas e fragmentadas se fazem em constantes disputas e negociações, como vemos claramente no Rio de Janeiro.

 

Dois grandes acontecimentos saltaram aos nossos olhos: a abertura da Avenida Central em 1904, por ordens do prefeito Pereira Passos; e o desmonte do Morro do Castelo, de 1921 até 1924. A Avenida Rio Branco passou por mudanças recentemente, durante o projeto da cidade olímpica. Tal fato fomentou uma reflexão e uma vontade de compreender como essas grandes mudanças urbanas aconteciam e ainda acontecem. Já o interesse pelo Morro do Castelo surgiu devido a essa atmosfera fantasmagórica que ronda a região e ônibus que se encaminham para o Castelo. Mas que Castelo é esse? Por que o morro que ocupava essa região e foi o primeiro ponto de urbanização da cidade foi desmontado? O que sobrou dele além de suas terras usadas para os aterros da região?

 

Essas grandes obras abalaram a vida da cidade, fazendo com que milhares de pessoas fossem removidas e lugares históricos fossem enterrados pelo rolo compressor do "progresso". Como plataforma para discutir todos esses questionamentos, nós desenvolvemos dois percursos de visitação, sendo um para cada acontecimento.

​Historicamente o direito à cidade vem sendo desrespeitado por gestores públicos

No Rio de Janeiro,  em especial, o processo de gentrificação tornou esse cenário ainda mais grave. Através de um conjunto de medidas urbanísticas que remodelam o espaço, esse processo expulsa a população mais pobre de uma região geralmente degradada, com o objetivo de dar lugar a uma área mais nobre e comercial. Como consequência, as pessoas com baixo poder aquisitivo são obrigadas a se mudar para periferia, longe de onde estão seus empregos.

​Eventos marcantes como a abertura da Avenida Central e o desmonte do Morro do Castelo, ambos no início do século 20, demonstraram o poder da articulação da gestão pública com o interesse do setor privado em realizar grandes obras. Transformações que, na maioria das vezes, deslocam populações pobres e "embelezam" a cidade, transformando-a em um museu a céu aberto, com narrativa hegemônica. À semelhança dessas reformas, as intervenções recentes para sediar grandes eventos  no Rio de Janeiro, criaram diversos espaços hostis e controlados para evitar um público indesejável. De tal modo, os espaços públicos se distanciam daquilo que deveriam ser: locais de convergência de pessoas, independentemente de classes sociais.

 

​As camadas de histórias são as marcas das diferentes vivências e percepções da população presentes na cidade

São as formas de se expressar, são as memórias, as tradições, as mudanças e permanências sociais, culturais e do espaço. Estão presentes nos detalhes, nas fissuras, nos materiais e visualidades. Ao explorarmos o passado através dessas camadas, podemos observar como a cidade é estruturalmente desigual, com diferentes formas de se viver e se apropriar do espaço urbano. Um espaço onde o direito à vida urbana e dignidade da população, se transforma em um cenário para conflitos sociais.

​Observamos que apesar desses grandes acontecimentos as pessoas fazem e refazem a cidade. Essas decisões, no entanto, passam por negociações, relações de representatividade, capital e poder. Além disso, vemos a construção da representação sobre a cidade como um processo contínuo de esconder - revelar, forjando muitas vezes uma realidade distinta daquela de quem a habita. Neste processo observa-se, por exemplo, a destruição de espaços com valor simbólico, sociocultural, de memória e de história, para ceder lugar a modelos urbanos importados.